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O diretor-personagem no cinema alagoano

Estar à frente de uma equipe de cinema, fazer escolhas estéticas, buscar a melhor técnica, propor referências, tomar as melhores decisões relacionadas às cenas gravadas, eliminar excessos; o diretor de cinema é a figura que busca materializar as ideias do roteiro, a pessoa que estará à frente da equipe para tirar do papel uma história e transformá-la em produção audiovisual. É a partir do diretor e suas escolhas que a produção cinematográfica é construída. A figura que está atrás das câmeras, mas que é tão presente e marcante na concepção da obra, por vezes rompe esse lugar e se torna o personagem de seu próprio filme.  O diretor-personagem é criador e criatura. Nesse processo de descortinar sua própria experiência de vida e transformá-la em obra audiovisual, o diretor-personagem se coloca no lugar central e de protagonismo.

Esse tipo de cinema toca em questões bastante particulares de cada diretor; fato que torna as produções únicas, com relatos muito íntimos no sentido de trazer para a obra audiovisual a subjetividade do diretor, suas vivências. Essa espécie de auto retrato, carrega fortemente a visão do diretor sobre si e sobre como ele representa os acontecimentos que ocorreram em sua trajetória. O artista cria uma imagem sobre si que deseja ser acessada pelo público.

Vicent Van Gogh ilustrou um fato de sua vida ao pintar o quadro Autoretrato com a Orelha Cortada (1889); Tarsila do Amaral criou uma série de autorretratos que marcaram as fases de sua vida; Frida Kahlo em sua trajetória artística também encontrou na expressão do autorretrato a possibilidade de se expressar ao mundo, e narrava sua vida através de suas pinturas. Da mesma maneira, outros tantos artistas criaram representações de si, como Portinari, Almada Negreiros, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Andy Warhol.

Habito (2023)

Filmes do tipo documental em que o diretor se torna personagem de sua própria obra, são significativos enquanto expressão artística de pessoas que até então estariam em posição desfavorável socialmente, um lugar possível para a expressão do pensamento crítico com relação ao seu lugar no mundo. Nesse sentido, o cinema autoral, em que os diretores buscam contar suas histórias de vida, são como uma espécie de canal capaz de democratizar o olhar cinematográfico. 

Quando falamos em diretor-personagem não há como não lembrar de Agnès Varda, uma das grandes cineastas que tem em sua filmografia a característica de se colocar enquanto protagonista de suas obras. Agnès não se exime de aparecer, não se esconde atrás das lentes; ela captura e é capturada; e nesse processo de criação fílmica encontraremos cineastas como alvo de seu próprio olhar em obras como Os catadores e Eu (2000), Visages, Villages (2017) e As praias de Agnès (2008).

Segundo Chaves (2023): 

Na década de 1980, influenciados por intensos movimentos de lutas sociais, grupos marginalizados começam a exprimir suas próprias narrativas em primeira pessoa através do cinema documental. Essa abordagem representou uma mudança significativa na forma como o cinema era feito até então, uma vez que os filmes passaram a ser vistos como uma ferramenta de empoderamento para esses grupos, dando voz e visibilidade para pessoas que, até então, eram ignoradas ou estereotipadas pela mídia. (Chaves, 2023, p.10)

Apesar de Chaves afirmar a existência desse movimento de transformação do cinema na década de 1980, e ao levarmos em consideração as especificidades de cada localidade, o cinema alagoano ainda se encontra atualmente em processo de expansão e em busca da democratização dos meios cinematográficos. Cinema é uma arte cara e por vezes o cinema negro desafia essa lógica ao buscar aternativas técnicas para superar as barreiras financeiras. Nesse movimento de filmes em que estão como centro das obras o próprio diretor, podemos citar três cineastas alagoanos: Paulo Silver, Fernando Santos e Roseane Monteiro; em seus respectivos Tipoia (2019), Habito (2023) e Projeto de Doutorado.1 (2023) estão presentes as figuras do diretor-personagem e desenvolvem cada qual histórias sobre suas jornadas de vida. 

Tipoia (2019)

Tipoia, do diretor Paulo Silver, carrega o sentimento de estagnação e inoperância em meio a uma realidade que impossibilita o desenvolvimento de perspectivas. O futuro é uma incógnita, uma grande interrogação. Não é apenas o braço de Paulo, diretor-personagem, que se encontra em situação de imobilismo. De dentro de seu apartamento Paulo observa a cidade e enquanto se recupera recebe mensagens de amigos; notícias políticas adentram a casa pela TV. A pergunta que se faz é: em que momento as coisas irão melhorar?

Uma voz serena, com instruções de meditação que inicia Tipoia é o contraponto da tensão; quando tudo nos leva para a ansiedade e a agonia da monotonia vivida. É preciso aceitar as limitações, as dores e as expectativas da recuperação. É preciso esperar o tempo necessário da cura.

A fragilidade física diante do incidente vivido por Paulo é posta nas câmeras. Ele metaforiza sua vida, expõe as suas limitações e traz momentos políticos do Brasil; a voz off de Paulo diz: “A sensação é que tipo… Mesmo com a tipoia ele tá caindo. O braço fica tenso, quando relaxa eu sinto que ele não tem apoio nenhum”.

Tipoia apesar de trazer esse tempo quase que em situação de suspensão, em que Paulo é obrigado a parar suas atividades, não deixa de ser um filme que traz consigo a esperança, a saudade dos amigos e a crença de melhora na realidade vivenciada.

Paulo Silver, enquanto diretor-personagem, abre sua casa, expõe suas angústias, sua família; enquanto amigos esperam sua recuperação, ele faz desse processo um filme não somente sobre si, mas que carrega em sua linguagem a experimentação de um cotidiano que parece não depender mais de nós.

Em Habito, Fernando, diretor-personagem, narra sua jornada em busca de um sonho: ser cineasta.  Fernando é um jovem negro, pobre, periférico e lida com os desafios de uma vivência no interior de Alagoas; largou a escola, trabalhou em uma lanchonete, foi parar no corte de cana-de-açúcar e no processo de irrigação. Como muitos jovens periféricos, ele trás a tona os obstáculos existentes para se alcançar um sonho.

Viajamos com Fernando em sua jornada na busca de se tornar um cineasta. O jovem que desejava fazer filmes sobre alienígenas se via em meio a uma realidade que pouco contribuía para que alcançasse minimamente seus objetivos. A pandemia da Covid-19 (SARS-CoV-2) que assombrou a humanidade e matou milhares de pessoas em todo o mundo é um espectro que também paira em Habito. Os problemas de saúde de Fernando e sua mãe somam-se para as incertezas do que será o amanhã. Habito é sobre sacrifícios, é sobre partir em busca de um sonho, mas ter como referência suas raízes; esse é o combustível. Fernando partiu, mas “o pensamento aterrissava no tempo presente e nas coisas que ficaram em casa”. Mas nenhuma insegurança é capaz de fazer Fernando parar.   

Projeto de doutorado.1 (2023)

Projeto de doutorado.1 de Roseane Monteiro, e do qual pude participar do processo de produção de roteiro e gravação, também é um filme em que a direção sai de trás das câmeras e se torna personagem de sua própria história. Assim como em Habito e Tipoia, Roseane Monteiro faz de Projeto de doutorado.1 uma espécie de diário que nos conta momentos vivenciados em busca do seu diploma de doutorado.

Roseane é uma mulher periférica, moradora do bairro do Trapiche da Barra, zona sul de Maceió, primeira de sua família a se formar na universidade e consequentemente a seguir o caminho acadêmico de progredir nos graus de mestrado e doutorado. Em meio a uma pandemia, ela se vê jogada no caos de ter que lidar com o processo de escrita da tese e uma grande família dividindo o mesmo espaço. A família de Rose é predominantemente composta por mulheres; uma história como a de muitas famílias da periferia em que a mãe é a referência da casa. Somos convidados a conhecer a família Monteiro e esse lar caótico e cheio de afetos.

Viajamos de Maceió à Florianópolis conhecendo o dia a dia de estudos de Roseane, a vida solitária de quem precisa partir e atravessar o país em busca de um sonho. Sair de Alagoas, um dos Estados mais pobres da federação, para Santa Catarina que possui um dos mais altos IDH’s do Brasil. São locais opostos. A família de Rose é negra. A população do bairro Trapiche da Barra é predominantemente negra. Alagoas tem em sua formação a presença negra e indígena. Diferente de Santa Catarina em que sua população é em sua maioria branca, de origem europeia; de países como Alemanha, Portugal e Itália. 

A presença da figura materna é uma característica marcante nesses três filmes. Enquanto Paulo se recupera de seu braço na tipoia, recebe cuidados de Jander; Fernando procura o aconchego e carinho no colo de sua mãe, é ela que o impulsiona a não desistir de seus sonhos; já Roseane, tem o apoio de sua mãe que a vê como “o futuro da família”. No quintal, Rose recebe o carinho de sua avó, um beijo na bochecha e um sorriso, enquanto faz salgadinhos para a festa.

Em Tipoia, Habito e Projeto de Doutorado.1 os diretores nos convidam a conhecer suas realidades. Enquanto em Tipoia encontramos um mundo fraturado, cheio de incertezas políticas, sociais e no âmbito pessoal do diretor; em Habito e Projeto de Doutorado.1 acompanhamos as dificuldades de uma vida periférica, moldada pelas barreiras sociais e no ato de superá-las. Os livros usados, os trabalhos precários, o sacrifício em busca de um sonho são elementos que Rose e Fernando trazem para seus filmes.

A figura do diretor-personagem encontra na afetividade seu ponto de força nos três filmes; e traz a necessidade de caminhar sem esquecer o que os impulsionam. Como o símbolo mítico da ave Sankofa, Paulo, Fernando e Rose olham para trás, para suas origens, enquanto caminham para a frente. São em suas raízes maternas que encontram a coragem e a sabedoria para enfrentar os desafios do presente e fazer do sonho um ponto de partida.

Referências:

CHAVES, Débora Marx Batista de Melo. O diretor-personagem na narrativa documental cinematográfica Brasileira. João Pessoa, Paraíba. 2023. 88 f. Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-Graduação em Comunicação) – Universidade Federal da Paraíba. Paraíba, 2023. Disponível em < https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/27603 > Acesso 24 de janeiro de 2024.

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